quarta-feira, 13 de abril de 2011

T


Vou beber só mais esse gole e vou te consumir até você ficar exausto

Até sumir qualquer rastro de dor, pavor, chaga, medo

inquietude

teor de misturas não identificadas

Mas já aviso:

não é algema

É liberdade anunciada ...

Vou beber só mais esse copo, não me interrompa

quero esquecer de quem sou

me lembrar de que sou

só essa nua que tudo te mostra

olhe-me, aproveite tudo...NUA mais que a pele

a alma

e o copo

já vazio.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O reflexo


Estava me preparando para imprimir uma foto sua na antiga impressora em preto e branco

Porque aqui no estágio, sabe como é, imprimo o que quiser

Aí eu nem revelaria, pegaria a sua foto em papel comum

Pra poder colar onde quiser, sem pena

Mas alguma coisa aconteceu

No meio do processo, no monitor, o reflexo do meu rosto apareceu

E de tão pasma, até as rimas estão surgindo

Ainda investigo o que se passa, tamanho o espanto de me ver sorrindo


Eu estava feliz, mas não foi isso

Não só

Eu estava feliz, mas descabelada

É, eu estava agasalhada, com a cara amarrotada e descabelada

Feia, realmente desprovida de beleza

Ai que desespero, ê mania louca e chata de querer a perfeição

Comecei a pensar

Pensei, pensei e pensei e só foi piorando

Pensar causa problemas, não acha?

Cadê minha auto estima a essa hora da manhã?

Devo ter perdido dentro de algum sonho de madrugada


Muito estranho (voltando a contar)

Por trás da sua foto, aquele rosto esquisito refletido

Confesso, senti vergonha

A ponto de pensar como tive coragem de me encantar por você

Você, que não deve se achar perfeito

Embora pareça estar sempre bem consigo mesmo

Mas que me faz sentir isso, esse desespero

Medo de olhar no espelho e ter que encarar o rosto feio de uma mulher insegura


Se tivesse esse poder, eu te afastaria de mim

Por pura precaução, já que logo logo você vai acordar do encanto mesmo...

Se eu tivesse outro poder, eu te manteria comigo pra sempre

Por mais que achem que “pra sempre” é um exagero, eu não me importo

Amo falar pra sempre, amo pensar que é pra sempre

Quase sempre, tudo o que quero,gosto,amo ou possuo é pra sempre

Porque a gente precisa eternizar o passageiro

Já que passa mesmo, e passa tão depressa...


Hoje de manhã (agora), sentei na frente do computador disposta a roubar tua alma

Ou foto, tanto faz

Mas na busca por sua imagem, encontrei a minha própria

E eu não estava preparada para olhar pra dentro

Eu só queria a ilusão de ficar plantada na janela, vendo o mundo

Sempre fui crítica demais e isso me prejudica muito pouco

Porque aprender sobre si mesmo dói, mas pode te curar

E eu sei que não foi a imagem em si que me afetou

Foi o espanto de vê-la, surpresa, como se aquele rosto não me pertencesse

Percebi o quanto renego o meu reflexo

Apenas porque busco uma perfeição que não posso possuir

Simplesmente porque ela não existe.


Chica Blanco.


quinta-feira, 31 de março de 2011

invasões bárbaras

É noite de lua - rosno. Uivo para o céu. Deixo no ar o cheiro agridoce da concha venusiana onde deságua minha alma. É meu cantar para o sátiro - meu convite à dança.
Aproximação. Um início de delicadeza. Mas te quero bruto - pele embaixo das unhas, gosto de sangue na boca, um pouco de dor onde pulsa a vida nesse instante. Faço-me cadela. Culpa dessa outra maldita que reverbera nas paredes do meu corpo. Solto o verbo sujo em teus ouvidos e passo a língua em teu rosto, teu nome, teu desejo. De pelos eriçados - qual bicho - deixo-lhe o cio marcado na pele das coxas - nos pelos da virilha. E te quero forte, lento, fundo. Quero aspereza, crueza, um pouco de hostilidade. Invasão, barbárie, curra. Porque não tenho medo - tenho vida. Porque agora - nessas horas em que violentas meu mundo - sinto vibrar o coração entre as pernas.

Existência

Existe por que você
"Exista em mim, exista forte, fundo, dentro...
exista!"
insiste ... transgride.

Existe dentro de mim
uma nova cor,
um novo sabor.
Seria amor?

Existe dentro de mim,
todo um anseio
todo o desejo
tudo que creio.

Existe dentro de mim
uma luz que brilha
quando eu te vejo

Existe dentro de mim
um fogo que acende
quando eu te beijo


Existe... por que você insiste
Existe por que existimos meu amor.

domingo, 27 de março de 2011

Uma noite

Amor meu, essa noite

dá-me um beijo e me descubra,

dá- me o que é seu e me cubra,

Absurdamente desnuda, transbordando desejo.

Pode ser um sussurro delicado e sensual;

Mãos de veludo que alcançam meus segredos;

mais que um toque, mais que abraços… dá-me um beijo.

Me dá, dá -me e eu te dou um beijo,

Dá-me um beijo do tamanho do meu corpo,

Seus lábios me compreendem,

seu cheiro me entorpece,

perco os sentidos quando abraço sua boca.

Quero teus líquidos , teus resíduos , teu sumo

Dá-me um copo deste teu gosto e… logo alucino.

A lua  lá fora de portas trancadas e nossa culpa esquecida na garagem.

Me toma, teus sentidos alcançam minha pele arrepiada,

Me maltrata, me judia,

Me morde, me ferve o sangue;

O coração eufórico diz que tudo pode

Tudo que não pode

Até calar os gritos nas paredes

e ouvirmos suspiros apenas, suados e ofegantes.

Duas mãos abraçadas;

Dois corpos se mi-mortos saciados;

e o gosto do último beijo ... do dia

Por que outros mil beijos, virão...

Ah! ai! mais que um toque, mais que abraços… dá-me um beijo



Thanks ...


sábado, 26 de março de 2011

o amante

Imagem: Nicoletta Tomas Caravia - Amantes 32

Clementine entrou escorregadia naquele quarto. O mundo emudeceu nublado e cinzento do lado de fora da brancura. O tempo não havia realmente passado - porque sabia que era apenas um conceito não-sentido usado pelos normais para criar justificativas e finalidades ansiosas. Clementine sentia apenas que estava repleta de um tempo perene, incessante, sem pontuações, justificativas ou paradas. E tudo fazia muito sentido porque não buscava sentido nas coisas - encaixes perfeitos de vícios tortuosos e sorridentes. E sempre havia continuidade do ponto onde haviam parado, como se tivesse acabado de se despedir daquela cor que adorava nos olhos do outro. Era sempre um estado de ímpeto, de calma, de desejo - o estado de todas as coisas, de todos as maneiras. Despia-se mesmo antes de estar completamente nua, sem palavras ou conversas prolongadas. Sentiam-se antes da proximidade dos corpos. As peles sorriam, esperançosas e acesas - iluminavam a árvore, a parede, o dia. Deslizou lentamente para junto do outro corpo, feito serpente, feito gato, feito bicho bonito. E então não havia mais paredes, não havia mais teto, não havia mais árvore, não havia mais pensamentos. O foco estava nas sensações de pele, de resposta imediata do seio ao toque, de línguas, de pulso vibrante abaixo das cinturas, onde entendiam-se os sexos e encaixavam-se os desejos nunca contidos dos sempre-amantes. Ele se acolhia trêmulo no refúgio quente e macio de Clementine, longe de todas as neuroses do resto do mundo. E Clementine o recebia de coxas-portas abertas - anfitriã-meretriz amável e molhada. E seus orgasmos começavam no momento em que seus sexos se cumprimentavam em línguas, antes de qualquer invasão, antes de qualquer barbárie. Era um gozar mesmo sem gozar, um gozar permanente de delícias de pele e amor. Um gozar de ais gemidos e sussurrados e contidos. Era um gozar que Clementine só experimentava naquele quarto - porque aquele quarto era qualquer lugar onde o outro estivesse -, naquele corpo, naquele tempo que só existia quando estavam em transe magnético. Não havia maledicências - as más palavras apenas exprimiam o jorrar orgástico e sorridente dos corpos. Os medos foram expulsos definitivamente - havia sustos deliciosos e entregas consentidas de corpo inteiro [um desejo de violação e conquista de todos os cantos que o amante pudesse tomar]. E o prazer arrastava-se e passeava por sensações e choques térmicos avassaladores propiciados pelas línguas perversas dos amantes - o frio doce tornava-se quentura instantânea e torturante que vertia em sal líquido na boca de Clementine. E as pequenas confissões nuas e suadas proferidas pelos lábios em estado de graça enchiam o peito da pequena de sorrisos e desejos.

Clementine levantou-se com o dia. Vestiu-se e beijou o sorriso e os olhos adormecidos do outro, dizendo-lhe segredos e fazendo confissões que ele não lembraria depois que acordasse - ele despertaria apenas com a sensação da paz turbulenta e sexual que Clementine deixara no quarto, nos lençois, no cinzeiro. 

Clementine ganhou a rua. Sentiu saudade. Desejou loucamente que ele não partisse para nenhuma terra distante.

Postado por Nina originalmente em: http://umaestranhanolivro.blogspot.com/
.

sexta-feira, 25 de março de 2011

... rs

A TPM

"Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar"
Renato Russo
Lava o rosto pela manhã.
Se olha no espelho...uma, duas, três,quatro, cinco...seis.
- PUTA QUE PARIU! seis espinhas.
Como isso poderia estar acontecendo? após 2 semanas de tratamento facial?
50 reais ! que poderiam ser gastos com balinhas 7 belo, daquelas de framboesa , bem docinhas e bem calóricas.
-Tudo bem !
E ela respira.
Ajeita o café da manhã, recebe msg do namorado, ela iria visita-lo no serviço ao final da tarde.
Toma café, acessa o e-mail, resposta nenhuma da ultima entrevista, nada, nem sim, nem não, nem talvez.
-MERDA! esse povo que selecciona currículos não tem coração mesmo!
Pensa.
Lê o Jornal , nada de editais novos de convocação, seus últimos concursos parados por 30 dias.
- 30 dias?! Votei na DILMA pra isso? 30 dias de espera pra ver meu nome naquela  lista de letras miúdas que chegam a  fazer doer  os olhos!!!! ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh .
Quase come o jornal, mas se entrega ao pão de forma.
Passa o maldito creme contra espinhas, ajeita o cabelo, começa a se vestir para consulta médica à ginecologista.
toca o celular , era da clínica médica, pela segunda vez a ginecologista desmarca a consulta.
- Como assim? agora eu vou esperar mais um mês pra fazer o exame de hormonio? e mais um mês pra regular tudinho aqui?! por que a porra da médica não vai me atender?! é isso mesmo?! é isso?
Nessa hora ela conecta-se ao msn, e lá vê seu namorado on line, conversam um pouco e ele diz que notou no ultimo encontro que sua testa estava ressecada e que poderia ser consequencia dos cremes.
- Mas naquele dia em que ele me viu eu não notei isso!
Boquiaberta.
- Perae, tava me achando a linda , a boa, á toa?!
Ele tentou anima-la, disse que estava linda, que estava isso e aquilo, mas não tinha mais jeito , ela já estava mal mesmo.
Correu até os armários, pegou cremes da sua mãe, passou de anti sinais á pós barba do avô nas malditas espinhas.
Lavou o rosto.
Um amigo no msn, passou uma dica de limpeza de pele infalível, ele estava sendo compreensível, uma outra amiga receitou um brigadeiro:
- amiga você está com TPM mesmo, por que você não é assim!
Liga pro namorado.
Ela chora, chora e decide tomar banho
Antes faz o brigadeiro, come o brigadeiro, toma banho.
Se veste.
Fala ao fone com sua mãe que ainda lhe dá uma chamada:
- você vai sair de casa com essa chuva? e com transito? já deveria ter saído daí, mas enfim a vida é sua.
Ela chora mais um pouco, diz ao namorado que não vai mais vê-lo no serviço,
ele demonstra ficar puto.
Ela desliga o fone :
- ele não me ama!
e chora.
Toca o fone , novamente sua mãe.
Só que pra dizer que um" parento "morreu...
Então o ápice do stress
- BOA , a gente passa a vida toda combatendo problemas, tratando espinhas pra morrer? MORRER!ah vá tomar no cú.
no meio do CÚ.
TÁ ESCUTANDO VIDA? NO CÚ!
 e então  ela tirou a roupa, botou um velho Jeans e caiu na cama.
Como não entender?!