sábado, 8 de janeiro de 2011

Fullgás

Falavam sobre a brevidade dos relacionamentos. Tudo se tornou efêmero no mundo moderno, disse eu. Ele concordou. Na verdade, enquanto eu escrevia um tratado sociológico embasado em autores da área, ele só concordava. Eu não sei se ele não tava pra papo ou não queria dizer nada mais do que a concordância que encerra o assunto e acaba com o debate. Aliás, ele mesmo disse hoje que não era chegado a debates políticos e todo relacionamento é político.

Talvez, estejam discutindo os dois. Afinal de contas, foram efêmeros na vida do outro também. Numa semana, conversavam diariamente. Na outra, não existiam mais laços.

Contou pra ele do Baumann e ele diz ser um desinteressado. Ela, com certeza aplicaria isso a outras áreas da vida dele, mas seria um ranço de amargura boba de quem se sentiu desprezada. Ele é um bom rapaz. Nada que ela tenha conseguido decodificar e interpretar, mas bom. Acha ela que ele também não quis contar quem era pra ela. Agora, isso já não é mais importante.

Ela sentiu, nesse momento, um acréscimo de estima por ele. Estima boba, sem qualquer conotação sexual ou de qualquer outro tipo de relacionamento senão afetivo. Também deve ser efêmera assim como as conversas, as pessoas, os relacionamentos, os casamentos e eles dois.

O Rodrigo da Moça

A moça falava do Rodrigo dela. Ou melhor, ela falava daquilo que viveu com Rodrigo nas entranhas depois do término. Acho que ela vomitou Rodrigo na conversa e eu fiquei meio sem saber se abraçava, se dizia que ele não prestava mesmo. Oras, eu nem sei quem é o rapaz, eu vou falar o quê? Por uns instantes, eu senti pena dela e ódio dele. Como é que o tal do Rodrigo podia fazer tanto estrago na pobre garota?

Nessa hora, eu me lembrei daqueles que me estragaram também. Vomitei certa vez um alguém. Outro ficou na garganta. Teve aquele que saiu deixando gosto amargo na boca, tão amargo de doer. Tiveram aqueles que não fizeram diferença alguma. Pensei que o Rodrigo podia ter feito isso comigo também. De uma forma ou de outra, estamos todos vulneráveis.

Queria poder abraçar a moça, mas não posso. Queria apagar todos os homens como Rodrigo que destroem moças do mundo, mas não posso. Queria não ser uma moça e estar à mercê dos acontecimentos. Restaram-me dois desejos apenas: que o Rodrigo não destrua outras meninas e que as meninas se tornem, dia após dia, indestrutíveis.

Baiano

Me maltrata, vai, me prende e me repreende nesse berço que me fez

Nessa prisão sentimental, física e psicológica que chama de “Amor”

Se é tão bonzinho assim, não me solta, não me dê esperanças de liberdade

Eu quero ser uma escrava eterna dessa nossa guerra que nunca acaba

A oportunidade aniquilada de qualquer reconciliação, eu quero a ausência do perdão

Da dívida eterna, interna, externa e com juros!

Eu quero que invada o meu país, mate o meu presidente e derrube os meus muros

Assim, sem delicadeza, sem palavras de conforto, sem escrúpulos

Deixe de lado sua dignidade fardada e esqueça qualquer lei que já inventaram

Seja expatriado, ateu, seja ingrato

Eu não quero conveniências e nem disfarces no seu modo de agir

Não precisa ter medo de me deixar com medo

Eu me apavoro facilmente mesmo

Você sabe, mas você não gosta, goste!

Eu não sou de cristal, eu sou de pedra, então não tenha pena

Porque eu não vou me desfazer feito uma onda, eu sou a própria maré

Não deixe de abusar, de morder, de pisar, de rasgar

Não se esqueça de não gritar, não deixe de gritar!

Porque eu adoro o seu descontrole controlado

O seu pavor de ser visto como um louco quando está acompanhado por uma desequilibrada

Você não pode aparentar surpresa com minha maluquice genial

Aja com naturalidade, quem manda aqui é você

Não me permita, não me ouça, não me conceda, me negue tudo

Eu não posso dar nenhum telefonema nem chamar o papai

Você é meu senhor, me comprou pelos meus dentes fortes e disposição

Então não me dê corda, não tenho esse direito, não me atrevo a pedir nada

Aceito calada, muda, paralisada

Mentira! Eu me movo, esperneio, berro, peço, imploro, eu ajo

Não me deixe fazer isso de novo, mas eu nunca vou parar

Adoro desfazer seus pedidos, porque eu quero ordens!

E eu digo que meu mundo é você

Enquanto te faço esquecer seu próprio nome

Repito, proclamo e invento mil formas de te excitar com meu português impecável

Com minhas piadinhas de sacadas invejáveis e minhas figuras criativas de linguagem

Te fazendo pensar que não quer mais nada na vida além daquele corpo

É tudo muito passageiro nesse mundo dos desejos, mas nada é impossível

Com minha cara de fragilidade e voz de cordeiro, te enlaço e desfaço o nó inteiro

Com a boca, com os dedos, com os olhos e qualquer canto de mim

Minhas armas eu carrego na pele, no me cheiro

Manda em mim enquanto é tempo, aproveite muito bem esses seus doces e livres momentos

Porque eu sou ambiciosa, porque eu tenho muita fome de você

E se eu te devorar, você não larga nunca mais.



Chica Blanco escreveu para Bruno Souza.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Mas hoje...eu só quero fazer amor!

O cano entupiu, bem... sempre dá problema nos canos da casa
E o pneu furou, tai não sei nem dirigir direito quem dirá trocar pneus...
E eu engordei, foram 3 quilos, mentira! Foram 3 e meio... tá certo, foram 4.
E o celular tocou, eu perdi a ligação, eu deveria escutar mais minha mãe e não deixar
Na droga do VibraCall, mas eu deixo... eu teimo e deixo.
E o salário não veio, e perdi minha manhã no banco, e uma moça me parou na rua
E eu não sabia dar a informação, ela ficou de cara fechada – que culpa eu tenho de não ser o Google Maps?!- e o transito tava agitado, e pra atravessar a avenida demorou quase 12 minutos, mentira foram 11 e meio... tá certo, foram 10.
Ao passar frente de uma obra gritaram – ae morena gostosa!-
Eu dessa vez não reagi nem com sorriso , nem com desdém apenas segui ...
E entrei numa padaria comprei uma coca-cola em lata, ao abrir a lata o gás sobe...molhando a blusinha branca e o jeans – Pai amado oh! Diazinho infeliz!- mas vou adiante...
Andando pelo centro, correndo e chegando em casa, suada, suja de coca-cola, sem grana e sem mais nada... me deito.
Ao me deitar lembro da casa que precisa ser ajeitada, da louça da pia, da roupa na maquina, do café pra coar, das apostilas pra estudar e da vida toda pra viver...
Aí nessa hora me vem você... e ao pensar em você:  tá tudo virado, tá tudo caindo... mas hoje, hoje eu só quero fazer amor.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Pelas horas não contadas

Amanheço. Vou tecendo meu tempo em sutilezas esquecidas no travesseiro - esse tempo vivo. Um rasgo de sobriedade amarrotada revira meus olhos embaçados e transparentes. Minhas dúvidas aquosas desprendem-se de mim a deslizar pelas frestas por onde transborda o dia. Os resquícios gloriosos e cintilantes da noite que acaba de se despedir enchem o quarto. Você não dorme. Seus olhos de rio inundam tudo ao redor - uma inundação de fome e delicadeza corrente. Penso em um ou dois versos que escreveria em açúcar sobre uma colcha negra de cetim. Onde acho uma colcha negra de cetim?
Você ri, ou melhor, sorri. Não entende muito bem essas minhas metáforas estranhas, minhas esquisitices bailantes, minha mania estúpida de coisificar o que sinto. Seja bem vindo; eu me chamo Loucura.
O relógio marca doze horas. O sol arde do lado de fora. Esquecemo-nos do mundo ou terá ele esquecido de nós? Displicentemente entardecemos. Sutilmente encontramo-nos nessa ânsia de amar agora ou de deixar para depois - sim, nós podemos amar depois. A tarde pode esperar, cair, escurecer - pode tornar-se noite. Não temos medo do escuro nem deixamos de estar em paz.
Anoiteço. A mobília muda de cor e as sombras não são mais da natureza da luz diurna. Com as mãos sujas do barro em que te moldei coloco mais um sorriso em teu rosto. Um sorriso mudo, ausente de palavras, de sons, de explicações. Não falamos porque não queremos ouvir - e esse silêncio é tão quente! Como pode faltar uma palavra que defina o que sinto se estou tão repleta disso, tão transbordante, tão transbordada? Essa nudez embasbacada de bálsamo e tomilho funde-se ao breu e à água morna. Esquecemos o tempo: agora é a hora certa; amanhã, quem sabe? Não faz diferença. Tudo é permanência, divindade, imperfeição desejosa de encaixe. Tudo é um pouco de mim, um pouco de ti - um bocado de nós. Tudo é o tempo que foge, que mingua, que se espalha pela terra abaixo dos pés, pela carne embaixo das unhas, pelo sangue no canto da boca - a urgência desesperada que assola o corpo e apazigua a alma após a breve morte e o mais breve reviver. Tudo é o viver pelas horas não contadas - presente passado a cada segundo: tempo-vivo; tempo-morto. Tempo meu. Minha memória e esquecimento.

O quartzo.

É muito difícil saber que existem outros amores
Tão intensos e tão poéticos quanto o meu
Incansavelmente belos em suas essências
Para preencher seu coração
Poderá você dizer que não
Que não há mulher no mundo tão fantástica quanto eu
Mas, há
E são tantas que até você perdeu a conta...

Porque de olhos castanhos este planeta azul já está cheio
E também possui toda a sua variedade de tons
Peles de várias texturas
Bocas de diversos formatos
Infinitos timbres de voz
Incalculáveis formas de se dar um beijo

Não, não sou nada além de uma migalha
Ou como diria Renato Russo, “sou uma gota d’agua, sou um grão de areia”
E a minha insignificância perante um mundo inteiro é brutal para a minha sensibilidade
Me rasga qualquer esperança que eu chegue a tentar manter
Machuca o desejo de pensar na possibilidade do que não é impossível

O tic-tac do relógio desta vida me deixa surda
E aí eu também fico muda
Porque se eu falo eu explodo, “Fernanda Vulcão” é um perigo tremendo
Me ausento no dormitório de meus pensamentos e repouso o raciocínio
Nunca gostei muito de pensar, principalmente quando estou amando
Mas, eu amo sempre...
Não fico sem amor, eu emendo e acrescento
Não subtraio amor da minha vida, multiplico por 100 e nem calculo a porcentagem
Cálculos são para os pensadores e eu quero ser só uma pedra

Uma pedra, por que não?
Imóvel, dura, muda, surda, insensível, imprestável, inválida
Será que as pedras têm alma? E as plantas?
Todos os animais possuem, disso eu sei...
E amor, todos os animais amam? Até as minhocas, hienas e gafanhotos?
Eu não sei, mas eu vou dizer que sim, porque é no que eu quero acreditar

Tudo o que eu acredito ser verdade é verdade
Porque eu escolho o roteiro da minha vida
Já que ela é um livro, dez livros, cem, uma biblioteca inteira
Eu mando em Mim porque paguei caro pelos direitos autorais em cartório
Mas, me dou de graça pra quem quiser me ver, beijar, tocar...
Como me dei pra você
Desembrulhada do papel de presente e até meio gasta
Mulher adquirida em brechó por defeito de fabricação
Já passei por infinitas trocas
Até que finalmente perceberam que não sirvo para ficar na vitrine

A peça usada e sem botão, com a etiqueta soltando e a costura torta
Enquanto você passeia pelas ruas e se delicia com vitrines de luxo
Como são atrativas essas novidades que surgem em nosso caminho
Como são saborosas as flores do passado que se mantém sempre frescas, saborosas
As mulheres possuem um encanto que me assusta e me rende
Eu não teria como não amá-las, pois sou fã do que todas elas são
Menos de mim
Porque a mulher que eu sou não se encaixa na perfeição onde todas as mulheres se encontram, endeusadas
Minha falta de egocentrismo me faz enxergar em cada mulher um novo universo
E em mim, apenas uma parte da parte que se partiu e que está prestes a partir desse mesmo universo

Por isso devo alertá-lo:
Caso não sejam falsas as suas palavras de ternura para os meus ouvidos puros
Que tome consciência de que não há em mim raridade alguma
Nenhum diferencial ou encanto incomum, excêntrico, exótico
Você pode ter rubis e esmeraldas
Mas eu sou apenas um quartzo.

Chica Blanco.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Olha o que o amor faz...

Onde uma vez a lua
Era apenas uma pedra girando no céu
Onde uma vez as estrelas
Eram apenas pequenos pontos de luz
Agora, a lua parece
brilhante pérola do céu
Agora as estrelas - eles se parecem
janelas em um outro mundo

Olha o que o amor fez pra mim
Olha o que o amor fez
Há poesia em tudo que eu vejo
Olha o que o amor fez
E meu coração está dançando
através de cada dia
Minha alma está solta
Olha o que o amor fez para mim

Onde uma vez a cada respiração
Foi apenas um suspiro de dor vazio
Quando uma vez eu quase não sentia
A batida no meu peito
Agora, cada respiração parece
Um beijo precioso da vida
Agora dentro de mim sinto
bater as asas de mil borboletas

Olha o que o amor fez pra mim
Olha o que o amor fez
Isto deve ser como ele é concebido para ser
Olha o que o amor fez
E meu coração está dançando
através de cada dia
Minha alma está solta
Olha o que o amor fez para mim

E eu não posso dizer...mas
Era o som de um doce violino?
Ou você falou?
E caiu um relâmpago onde estou?
Ou você simplesmente chegou e pegou em minha mão?

"PARA 2011 AMOR"